O DESERTO DOS TÁRTAROS
(...) o tempo foi mais rápido que vocês, e não podem mais recomeçar.BUZZATI, Dino. O Deserto dos Tártaros, p. 110.
Por Narah Soares
Impelido pela possibilidade de lauréis e notoriedade, Giovanni Drogo, um jovem rapaz recentemente inserido na carreira castrense, é enviado ao forte Bastiani, onde espera o apogeu de sua história: o dia em que o forte será atacado pelos tártaros e, por conseguinte, ele tornar-se-á celebrado pelos feitos em batalha.
O tempo transcorre, sem inquietação alguma. Os dias, na fortaleza, são pacatos e entediantes, e os soldados seguem regras, que, malgrado incompreendidas, são, para eles, imprescindíveis para o bom funcionamento do lugar. Persistem, pois, seguindo os inúmeros regulamentos que conhecem, mas que não entendem, e que tampouco questionam.
Um clássico da literatura está aberto a diversas interpretações, mas penso que a opinião dos leitores de O deserto dos tártaros irá convergir em um determinado ponto: o livro faz uma crítica a uma vida sem significado. Amiúde, postergamos a felicidade para um outro momento, em um futuro próximo, no qual nossos bolsos estarão mais cheios, nossos nomes serão mais reconhecidos, ou nossos perfis, em mídias sociais, terão mais seguidores. Amiúde, deixamos a vida passar a largo, esquecendo que a complacência não é uma das principais características de Cronos, o senhor do tempo.
O amanhã torna-se hoje, e, assim, os dias sucedem. No livro de Buzzati, os personagens seguem regras, que se manifestam em inúmeras formalidades, e estas não possuem significado algum. Seguem-nas para que sintam que as vidas monótonas, insípidas, têm alguma relevância, algum propósito, quando deveras não têm.
Não há tártaros. Os únicos habitantes daquele deserto são os soldados, seus egos e suas ilusões. Sob a promessa de láureas, Giovanni Drogo desperdiça anos de sua vida naquele forte insólito, existindo, mas não vivendo.
Outra interpretação que faço de O deserto dos tártaros é acerca da obediência às ordens. Os soldados se submetem a inúmeras regras, sem fazerem questionamento algum. Em uma das cenas mais memoráveis - e chocantes - do livro, um dos soldados mata outro, que, ao sair escondido do forte para recuperar o cavalo fugido, desconhece a senha para retornar à fortaleza.
(...) a sentinela não era mais Moretto, era simplesmente um soldado com as feições endurecidas que agora erguia lentamento o fuzil, fazendo pontaria contra o amigo. (...) Lazzari, sem se virar, retrocedeu alguns passos, tropeçando nas pedras. (...)
- Sou eu, Lazzari! - gritava. - Não está vendo que sou? Não atire, Moretto! (...)
- Ô Moretto, você me matou!
É muito fácil ser absorvido pela prosa de Buzzati, uma vez que o autor narra a história de forma deslumbrante; os olhos passeiam pelas páginas com deleite. É um livro em que poucas coisas ocorrem, e, ainda assim, a leitura é instigante, muito embora eu tenha demorado algum tempo para findar o livro, devido aos compromissos com a faculdade e a outras leituras.
A tradução foi feita por Aurora Bernardini e Homero de Andrade, que, após muitos anos de tentativa, conseguiram convencer a editora Nova Fronteira, sob a justificativa de que o livro era lido por Antônio Cândido anualmente.
Como dito anteriormente, um clássico abre espaço para diversas interpretações. O livro de Buzzati, ainda que tenha um volume diminuto, parece conter um universo inteiro, em virtude da grandiosidade das temáticas abrangidas. É um livro que, inicialmente, me assombrou pelo conteúdo e, depois, pela mesma razão, me enfeitiçou.
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