O QUINZE

Por Samara Genovez


 A miséria e dificuldades presentes do sertão inspiraram grandes autores a escreverem obras que entraram para o acervo da boa literatura nacional. Quem nunca leu Vidas Secas, de Graciliano Ramos, certamente não chorou com a morte da cachorrinha Baleia, assim como quem nunca leu Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, não suspirou com aquela frase final: vale à pena viver, mesmo que seja a explosão de uma vida Severina. Como esses mestres da literatura, Raquel de Queiroz também soube descrever o sertão ao seu modo.
Com a simplicidade característica do sertanejo e a linguagem matuta do sertão, Raquel de Queiroz, filha de magistrado e dona de um conhecimento literário riquíssimo, descreve de forma clara, e ao mesmo tempo emocionante, a seca que castigou o sertão no inicio do século XX. Ela não somente abordou as mazelas sertanejas, mas acima de tudo fê-lo de maneira que não se permitiu romantizar o que é trágico.
A famosa seca de XV levou à morte milhares de sertanejos, fez com que fossem criados campos de concentrações desde o Crato até Fortaleza, dizimou famílias, humilhou bravos vaqueiros que viram seus filhos morrerem de fome, provocou grande caos. Nesse contexto feroz, a autora relata como famílias viram suas vidas serem destruídas e mesmo assim terem que tentar se reinventar de outras formas, em outros lugares. Com relatos de altruísmo e impiedade, O Quinze nos mostra como o sertanejo pode contemplar a beleza e a torpeza com vasta intensidade.
A sensibilidade da autora é maestral ao retratar o sofrimento de maneira humilde e ao mesmo tempo impactante, mostra como a natureza pode ser cruel, escrevendo sem exageros ou mesmo fantasias. Mas não é só a miséria que Queiroz transcreve em seu livro. Em meio a tanto sofrimento o amor também ganhou espaço e os personagens Conceição e Vicente representaram em palavras o típico romance matuto, em que os flertes são uma mistura de paixão e orgulho, bem me que e mal me quer. Mesmo em um cenário devastado, a simplicidade e inocência do romance sertanejo não deixaram de ser lembrados, dando graça e cor ao sofrimento ora descrito.
Escrever sobre o sertão, a seca, o Nordeste, tem seus encantos e peculiaridades. Mas como escrever sobre a fome, a miséria, e conseguir passar ao leitor, com a devida intensidade, todo esse sofrimento? Sensibilidade ou perspicácia, não dá para definir. O que se pode afirmar é que Queiroz não descreve somente o sertão, a seca, ou a miséria, ela descreve principalmente o sertanejo e seu altruísmo. Quase cem anos do seu lançamento, O Quinze nos mostra que o sertanejo é como as plantas da caatinga: deixa as folhas caírem quando bate o forte sol para preservar sua essência e assim brotar as mais belas flores depois de passadas as chuvas. 



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