HOLOCAUSTO BRASILEIRO

Por Samara Genovez 

Não é comum entre os brasileiros a discussão sobre as diversas barbaridades promovidas no nosso país, salvo aquelas reverenciadas nos livros de história distribuídos nas escolas. A grande maioria das atrocidades ocorridas na nossa pátria são “ignoradas” ou pelo menos não são tratadas com a devida importância.

Ao ler o livro Holocausto Brasileiro, da escritora Daniela Arbex, a sensação que ele nos remete é de uma gigante ignorância em relação a verdadeira face do nosso contexto social – de um Estado que mata silenciosamente. Costumamos estudar o massacre aos judeus promovido na segunda Guerra Mundial como uma coisa distante da nossa realidade, um episódio do livro de história do qual temos conhecimento mas que só conseguimos imaginar como algo que aconteceu muito longe de nós - em outro continente. A escritora, mediante suas reportagens que deram origem ao livro, mostra que os arquivos pátrios guardam memórias de eventos tão truculentos quanto os da Segunda Guerra, ou até mais, e que por estarmos alheios os deixamos passar despercebidos. Convencionamo-nos a pensar que a Guerra de Canudos, Ditadura Militar e todos os mais famosos conflitos sociais apresentadas nos livros didáticos de história foram os episódios mais violentos vivenciados no nosso sistema, mas o livro ora retratado mostra que muitas das ações truculentas do nosso ordenamento foram (e são) silenciadas.

Com uma reportagem maestral, Daniela mostra em relatos claros e chocantes a história do hospício de Barbacena, cidade de Minas Gerais, construído no início no século passado que tinha como objetivo inicial o tratamento de pessoas que sofriam de doenças mentais, a ideia era que o paciente fosse tratado e depois retornasse aos seus familiares. Minas era famosa por seus hospitais psiquiátricos, o centro de estudos nessa área se encontrava nesse Estado, mas os métodos de tratamentos, de gestão hospitalar e políticos fizeram com que esse espaço construído para abrigar pessoas que inicialmente necessitavam apenas de ajuda se tornasse um centro de carnificina humana, verdadeiro matadouro humano.

Cerca de 60.000 pessoas, esse é o número de vítimas desse tão famoso centro psiquiátrico cujos pacientes chegavam aos montes, não porque precisavam, mas porque aquele lugar já havia se tornado uma espécie de exílio. O trem de loucos que chegava carregado com os próximos exilados, a média de dezesseis mortos por dia no pátio do hospício, a venda de centenas de cadáveres por vez às faculdades de medicina de todo o país, a alimentação animalesca, a exposição ao frio intenso dos pacientes completamente nus e tantas mais atrocidades fizeram com que Barbacena sediasse um dos maiores eventos sinônimos de desumanidade que esse país poderia ter em seus registros históricos. O mais impressionante disso tudo é que foi necessário a denúncia de um psiquiatra americano ao New York Times para que o Governo brasileiro compreendesse que aquela carnificina jamais deveria ter sido iniciada.

A maneira como a sociedade foi conivente com essa atrocidade assusta mais do que o financiamento estatal para a promoção dessa selvageria, pois não é novidade o Estado agir de encontro aos interesses sociais; mas o justifica o comportamento dos demais cidadãos daquela cidade? Por que foi necessário quase um século para que se pusesse um fim àquela completa falta de dignidade humana? Infelizmente, uma das coisas que o livro mostra é que não há uma agressão societária tão grande sem a participação da própria sociedade, e isso é uma pena.

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