A FRAUDE E OUTRAS HISTÓRIAS

Por Narah Soares 


A propósito da Sonata de Kreutzer, último conto da antologia que nos é oferecida pela Editora 34, em A Fraude e outras histórias, trata de um tema ainda em voga em nossos tempos: o tratamento diferenciado que homens e mulheres recebem na hipótese de relação extraconjugal. Estas, e pensemos nos inúmeros exemplos que encontramos na ficção e, também, na realidade, são ostracizadas pela mesma conduta praticada por homens, que, fácil e usualmente, são perdoados. 

Tenho em mente, agora, Hester Prynne, de A letra escarlate, condenada a carregar sobre o peito a letra A, de adúltera, que a queima não somente devido à fulgurosa cor, mas pelo julgamento da sociedade que a circunda e, pior até, pela culpa que Hester imputou a si mesma. 

Diferentemente da mulher, foi o próprio Dimmesdale que, antes mesmo da chegada do marido traído, se castigou, destruindo pouco a pouco o espírito, culpando-se pela omissão e, ouso dizer, por testemunhar, silente, a punição solitária de Hester. No livro, a sociedade puritana de Salém, malgrado curiosa para saber a identidade do progenitor de Pearl, condena Hester à prisão e, em sua libertação, submete-a a humilhações no cadafalso, deixando de lado a identidade do misterioso homem, o amante e cúmplice de Hester. 

Sonata de Kreutzer é uma novela que foi escrita por Tolstói; nela, na primeira cena, uma senhora diz à pessoa com quem conversa: “Sim, mas eu penso que o senhor vai concordar comigo que a mulher também é gente e tem sentimentos, como o homem”. 

Nesse sentido, o conto de Leskov nos apresenta uma pequena pérola: a história, que se inicia com a visita de uma mulher ao autor, após o sepultamento de Dostoiévski, discute, ainda que brevemente, a questão feminina na Rússia, em meados do século XIX. A visitante, cujo rosto está escondido sob um véu, confidencia ao autor que mantém uma relação extraconjugal desde o início do casamento e, não suportando mais a conjuntura, necessitava do conselho dele. Ele, então, aconselha-a a omitir o fato do marido e, em contrapartida, a encerrar a relação extraconjugal. 

Leskov, cuja escrita é muitas vezes descrita como uma amálgama singular de crônica e lenda, retrata, no conto em comento, o cenário culto de Moscou, agitado pela infidelidade de uma mulher rica. As questões levantadas pelo autor são muito interessantes. Este parece ter um entendimento destoante ao de seus contemporâneos. O autor escreve:

Se a mulher é um ser humano exatamente como o homem, se tem os mesmos direitos como membro da sociedade e se lhe são permitidas essas mesmas sensações, esse mesmo sentimento humano que se permite ao homem -- como Cristo nos dá a entender, como diziam as melhores pessoas de nossos século, como diz hoje Lev Tolstói, e no que eu percebo uma verdade incontestável --, então por que o homem que viola o preceito do pudor perante a mulher à qual deve fidelidade, cala-se, cala-se sobre isso, consciente da própria falta, e às vezes consegue reparar a indignidade das suas paixões e por que a mulher não pode fazer o mesmo? Estou convencido de que ela pode.  
Ao ler a última oração, não pude deixar de concordar com o que Górki disse. Este, em algum momento, afirmou que, quando se lê Leskov, sente-se mais a Rússia, com tudo o que há de bom e ruim nela.

Embora as histórias do autor estejam bastante entrelaçadas à cultura russa, não hesito ao afirmar que há, em seus escritos, o cerne da alta literatura: identificação e, por conseguinte, malgrado idiossincrásica sua escrita, unidade.  

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